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O ato difícil do melhor jornal do Brasil

Núcleo Jornalismo pausa atividades por crise financeira, mudanças causadas pela IA e plágios de colegas

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Imagem: Núcleo Jornalismo
Texto: Raniê Solarevisky de Jesus

O Núcleo Jornalismo, uma das iniciativas de excelência mais responsáveis e atentas às necessidades do nosso tempo, vai fazer uma pausa. O motivo principal é a crise financeira do veículo, escrevem os fundadores. Já da nota, que é bem detalhada, salta uma virtude que não encontra equivalência na imprensa do nosso país: a transparência com o leitor, registrada nos relatórios (financeiros, inclusive) enviados a todos os assinantes periodicamente.

Há raríssimos veículos no Brasil capazes de antecipar tendências que não são só hype de tecnoevangelistas, mas projeções concretas sobre como podemos dispor, compartilhar e buscar informações num cenário cada vez mais confuso e inebriado de dados legítimos e conteúdo sintético. Além de fazer isso em diversas frentes, como na adoção do selo "conteúdo produzido por humanos", o Núcleo também era um depósito de investigações originais e que mais ninguém estava fazendo sobre práticas de todo tipo nas redes e das redes, sempre adornadas com texto primorosamente simples e recursos interativos inventivos que seguravam quem acessava pela mão e realizavam o cada vez mais raro milagre da leitura-além-do-título.   

O anúncio é muito representativo de um tempo em que vimos os acessos caírem vertiginosamente nos portais de jornalismo depois do lançamento definitivo dos AI Overviews do Google, na mesma medida em que o acesso a modelos de IA e o vibe coding diminuíram substancialmente o atrito para o desenvolvimento de novos produtos de tecnologia -- tudo isso consta no texto que anuncia a pausa.

A ocorrência também demonstra a necessidade de regulação mais incisiva da profissão e o fortalecimento de entidades de classe. Como a FENAJ não tem a força de um conselho como o de Medicina, por exemplo, não pode cassar registro profissional ou impedir um repórter de trabalhar porque ignorou um item fundamental do código deontólogico da profissão. No cenário atual, se algum colega copia na cara dura uma apuração suada do Núcleo e publica como sua -- fato consumado um bom número de vezes -- nada acontece com ele ou com o jornal, a não ser que alguém vá gastar alguns reais com advogados.

O caso, infeliz e até agora largamente ignorado na faculdade em que leciono, deveria servir de insumo para as aulas nos cursos de jornalismo pelo país. Naqueles em que a discussão sobre o digital e o futuro da profissão consegue ter mais espaço, há inúmeras lições e reflexões sobre modelos de negócio, circulação de contéudo, demanda informacional, grade curricular e cultura de consumo na web, para ficar só nesses tópicos.

Como qualquer pessoa que esteja prestando o mínimo de atenção ao que as big techs e seus entusiastas têm feito com a internet que tomaram para si, torço para que a pausa do Núcleo seja breve. Como os editores notam no texto, o teatro do digital tem mudado muito rápido, com troca de papéis, roteiro convoluto e cada vez mais imprevisível. Justamente pela potência da sua performance nos últimos seis anos, esperamos mais surpresas do melhor ator do jornalismo digital brasileiro recente. Que o retorno do Núcleo seja um espetáculo triunfal. E que esse primeiro ato continue a inspirar novas e instigantes performances.

Categorias: Pensatas