General Magic: o tempo certo das coisas e a forma que elas assumem
Documentário narra trajetória de empresa desconhecida que projetou o smartphone como o conhecemos
por Raniê Solarevisky de Jesus
General Magic é um documentário de 2018 que trata da história de uma empresa subsidiária da Apple responsável por pensar o smartphone como o conhecemos hoje. O que podemos dizer, sem estragar as surpresas (dá para falar em spoiler quando se trata de documentários?) é que é uma película sobre visão de futuro, sonhos e realização pessoal, trabalho em equipe, design e concepção de produto, mercado e consumo de tecnologia digital. De certa forma, a compahia também foi o berço dos emojis, dos iPods e dos projetos do LinkedIn e do Twitter.
O filme dá bastante destaque à figura de Marc Porat, líder da General Magic, que chega a mostrar um livro em que fez os primeiros rascunhos de um dispositivo, um "Cristal de Bolso", uma espécie de joia com telinha onde brilhariam ícones com acesso a todo tipo de aplicação, em 1989 -- bem antes de Steve Jobs subir ao palco para mostrar o iPhone em 2007. Esse momento mais recente da Apple também está no filme, mas o foco fica mesmo na chamada "pré-história do smartphone".
Assistindo, qualquer espectador consegue ver tropos reconhecidos da indústria de tecnologia digital: a raridade de figuras femininas em escritórios ou posições de poder, o rituais de constrangimento e excitação das feiras de nerds da área, a megalomania dos discursos nas apresentações e pitchs de produtos que moldaram os já tediosos TEDs, os prazos dilatados até onde o orçamento permite, a imprensa (mesmo a especializada) que não parece entender tão bem o que reporta, a desconexão entre o projeto do desenvolvedor e as vontades do usuário.
Mas também é muito interessante ver, hoje, como a peça se encerra: o mundo digital de 2018 é muito diferente do de 2026, mesmo que a maior parte do que se diz em tom professoral ali ainda seja válido. Reunir um time de desenvolvedores estrelados como o que criou o Magic Link hoje talvez custasse caro demais para qualquer empresa, mesmo para as big techs -- apesar da compra e venda de especialistas em IA ultimamente rivalizar com os contratos dos grandes clubes de futebol. As demandas e interesses dos usuários online também já parecem ter mudado de direção pelo menos umas três vezes nesse período, mas a persistência do setor em criar necessidades ou formatar hábitos permanece, ainda que sob nova forma. Basta perguntar de quem foi a ideia de te colocar para rolar um feed de conteúdo que você não pediu para ver.
Apesar do rótulo de documentário, há drama para quem gosta de sensações: intrigas corporativas, traição, quebras de contrato e voltas por cima construíram a trajetória do celular em sua forma atual e também os alicerces de várias outras empresas que servem produtos que você usa ou provavelmente já usou. Há muito material de arquivo e não há cenas reconstruídas com atores ou algo do tipo, com entrevistas com as pessoas centrais para a trama -- dos novatos aos veteranos. Nesse sentido, a equipe de produção fez um trabalho de pesquisa muito bom.
Definitivamente recomendado para quem está investido em tecnologia, design e cultura digital, a trilha onírica de fundo e o tom uniforme das vozes das entrevistas podem deixar a sessão um pouco sonolenta em alguns momentos, caso . Mas tal como os engenheiros da fábrica de futuros, você nunca vai saber se nem ao menos tentar.
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